Sábado, Fevereiro 19, 2005

Programa de Faro Capital da Cultura com Muitas Lacunas

Por IDÁLIO REVEZSábado, 19 de Fevereiro de 2005
O programa de Faro Capital Nacional da Cultura 2005, apresentado ontem na capital algarvia, destina-se a todas camadas do público, e não quer resvalar para as tentativas fáceis do entretenimento turístico. A promessa foi feita pelo comissário, António Rosa Mendes, no salão nobre da Câmara Municipal de Faro, ao apresentar um programa com muitas lacunas: "Ainda falta burilar, não está definitivamente completo." Por enquanto, foram dados a conhecer os "espectáculos estruturantes", mas sem datas ou locais.
O secretário de Estado dos Bens Culturais, José Amaral Lopes, interpelado sobre o sentido e oportunidade da data - no final da campanha eleitoral -, respondeu: "É a demonstração de que o Governo trabalhou, garantiu e cumpriu aquilo que tinha assegurado."
Ao longo de oito meses, por toda a região vão ter lugar 130 espectáculos e 23 exposições. Rosa Mendes fez questão de sublinhar que vai desenvolver uma "programação assumidamente cultural, e não animação propriamente dita". Além dos espectáculos nos grandes centros urbanos, está previsto que o grupo teatral O Bando fixe residência numa aldeia da serra algarvia e, a partir daí, desenvolva espectáculos pelo interior. A coreógrafa Olga Roriz desloca-se para a ilha do Farol, para montar um espectáculo que se inicia no barco que faz a ligação para Olhão, e envolve a comunidade piscatória.
Depois de enunciar as linhas gerais da programação, Rosa Mendes destacou algumas companhias e figuras de renome nacional que irão integrar a programação, mas não entrou em detalhes de calendário. Admitiu que a "maioria dos espectáculos ainda não tem data, embora já tudo esteja esquematizado".
O Teatro Municipal de Faro, considerado, em Setembro, pela ministra da Cultura, Maria João Bustorff, uma "peça-chave" do evento, abre-se à Capital da Cultura a 1 de Julho, com um concerto pela London Simphony Orchestra, vocacionada para obras contemporâneas.
Entre os "espectáculos estruturantes" estão, no teatro, as peças "Le Grand Inquisiteur" e "La mort de Krishna" (encenação de Peter Brook), "Hedda Gabler", de Ibsen, com encenação de Eric Lacascade, e a reposição de "Homenagem ao José Saramago" (com Maria de Medeiros, Marisa Paredes e Laura Morante). No cinema, está previsto o apoio a projectos de filmes sobre o Algarve (dos cineastas João Botelho, José Nascimento, Margarida Gil, Miguel Gomes e Renato Sancho).
Nas artes plásticas, a informação é também vaga: entre as 23 exposições incluem-se "As origens da ocupação humana no promontório sacro", "A invenção do mundo", "Caminhos do Algarve Romano". Na dança, um projecto de Faro Capital Nacional da Cultura - "Meninos d'Olhão" -, será feito em co-produção com a Companhia Instável e direcção de Clara Andermatt. Na música, estão projectados muitos concertos e recitais, desde a música clássica, ao "jazz, fado e música do mundo". Na música clássica estão anunciadas as presenças da Orquestra do Algarve, Orquestra Sinfónica Portuguesa, Orquestra Nacional do Porto, Coro do São Carlos, e de Ana Bela Chaves, Pedro Burmester, Artur Pizarro, Jorge Moyano, Jeff Cohen e das cantoras Elsa Saque e June Andresen.
Estão também previstos congressos, conferências, um "workshop" dedicado aos 250 anos do Terramoto de 1755 e de um encontro de poesia em que se homenageará a poeta Sophia de Mello Breyner Andresen.
"Sem significado turístico internacional"
O presidente da Região de Turismo do Algarve, Hélder Martins, afirmou ao PÚBLICO que este evento cultural não vai ter significado em termos de mercado turístico estrangeiro: "Para fazer a promoção internacional, teria de ter tido o programa completo em Agosto do ano passado." Para a abertura de Faro Capital Nacional da Cultura, disse, sugerira um concerto com os U2, no Estádio do Algarve, mas a proposta não avançou por falta de verbas. O presidente da Região de Turismo do Algarve, do PSD, justificou a sua não presença na cerimónia de apresentação por uma incompatibilidade de agenda, uma fez que o convite só lhe chegou na quinta-feira.
O Partido Socialista, em nota de imprensa, diz que vai "exigir uma clarificação e esclarecimento sobre a metodologia adoptada para a programação". Por outro lado, critica o facto de "o Governo demissionário não se coibir de, atabalhoadamente, anunciar um programa".

in Público